Cuidado com o ‘dia do lixo’ na dieta cetogênica

Todo mundo já ouviu falar no “dia do lixo” de quem pratica dietas restritivas. No caso da cetogênica, em que os carboidratos são deixados de lado para favorecimento da gordura como fonte de energia, ocupar um dia da semana com alimentos doces pode ter consequências prejudiciais para a saúde cardiovascular.

Uma dose de 75 g de glicose (açúcar), pouco menos do que existe numa garrafa de 500 ml de Coca-Cola, já é suficiente para danificar as artérias, dizem pesquisadores da Universidade de British Columbia, no Canadá. O estudo, publicado no periódico científico Nutrients em fevereiro deste ano, refere-se à forma como a gordura corporal interfere no consumo de energia, que é o caso da dieta cetogênica, muito recomendada para pacientes com diabetes de tipo 2 e, em alguns casos, para portadores de epilepsia, mas que também é usada como método para perda de peso.

“A dieta ‘keto’ [do inglês ketogenic] tornou-se muito comum. Trata-se de comer alimentos ricos em gordura, moderada em proteínas, mas muito pobres em carboidratos. Isso induz o corpo a entrar no estado chamado de ‘cetose'”, comenta o pesquisador Jonathan Little, principal autor do estudo, citado pelo jornal espanhol El Español. Isso significa que o organismo, sendo privado de seu combustível favorito, o açúcar, começa a queimar “agressivamente” as reservas lipídicas.

Essa mudança bioquímica tem provado ser capaz de reverter os sintomas de certas doenças, mas o que a tornou famosa é o rápido emagrecimento que gera. O problema é que essa alteração leva a uma menor tolerância à glicose e, com isso, uma reintrodução repentina de açúcar no organismo pode causar picos de glicose no sangue. Este problema, como lembram os cientistas, tem sido associado ao aumento do risco cardiovascular.

Para descobrir o que efeitos fisiológicos do “dia do lixo” na dieta cetogênica, os pesquisadores recrutaram nove jovens saudáveis que foram alimentados de acordo com a dieta cetogênica durante sete dias consecutivos: consistia de 70% de gordura; 10% de carboidratos e 20% de proteína. No primeiro dia, eles tomaram uma bebida com um teor de 75 g de glicose e, no último, outra dose desse tipo.

“Originalmente nós estávamos procurando uma resposta inflamatória do sangue em resposta à glicose. O que descobrimos, no entanto, foram biomarcadores sanguíneos que sugeriam que as paredes das artérias estavam sendo danificadas pelo súbito aumento de açúcar no sangue”, afirma o pesquisador Cody Durrer, co-autor do estudo, também citado pelo El Español.

Apesar de os voluntários serem jovens e saudáveis, quando foram realizados exames cardiovasculares após a ingestão de glicose, os resultados pareciam de alguém com problemas cardíacos.

No entanto, os autores alertam que são necessários mais estudos para entender essa associação, mas que suas conclusões são suficientes para as pessoas evitarem o “dia do lixo” na dieta “keto”.

“O que me preocupa é que as pessoas que estão com a dieta cetogênica, seja para perda de peso, seja para tratar diabetes ou qualquer outro problema de saúde, pode ser desfazer os efeitos benéficos potenciais sobre suas artérias se de repente se ‘entopem’ de açúcar”, afirma Durrer. Ele lembra ainda que isso é ainda pior casa haja uma predisposição a problemas cardiovasculares.